Entrevista com Michael Butkera – Coluna Mundo da Logística

03/06/2019 - Patricia Faias

Mike Butkera

Paulo Oliveira e Eduardo Magalhães escrevem a Coluna “Mundo da Logística” para a Revista Mundo Logística, na qual entrevistam executivos de Supply Chain de diferentes países. Confira a entrevista com Michael Butkera, publicada na edição 69, MAR/ABR 19 da revista. 

Michael Butkera tem trabalhado com Supply Chain e Logistica nos últimos 15 anos, passando pelo Wal-Mart e APL Logistics, e incluindo uma formação acadêmica em “Supply Chain and Operation Management”. Atualmente, ele trabalha para a empresa DuPont como Gerente Global de Logística. Michael é responsável por apoiar duas unidades de negócios: “DuPonIndustrial Biosciences” e “DuPont Nutrition and Health”. Nesta entrevista, Michael fala sobre desafios, estratégia e sua visão futura para a área de Supply Chain.

[Eduardo] Como você decidiu trabalhar com a cadeia de suprimentos? Imagino que foi bem cedo, já que você também tem formação acadêmica nesse assunto.

[Mike] Eu sempre quis fazer algo no campo dos negócios. Na Shippensburg University, fui para a escola de negócios John L Grove College of Business, e uma das qualificações era em Supply Chain Management and Operations. Fui pesquisar e vi que o curso falava sobre todos os diferentes temas em transporte, armazenagem e cadeia de suprimentos de ponta a ponta. Soou interessante o suficiente para mim e eu dei uma chance. Então, me formei em Administração e Operação da Cadeia de Suprimentos. A partir desse ponto, consegui traduzir essa formação em um trabalho fora da faculdade na Wal-Mart Logistics, em um de seus centros de distribuição e, assim, minha carreira continuou nesse caminho.

Falando sobre seu papel atual como Gerente Global, quais são seus principais desafios?

No meu cargo atual em logística global, sou um colaborador individual, meu trabalho é influenciar os negócios e estabelecer uma conexão-chave entre nossa organização corporativa de sourcing e logística. Portanto, uma das minhas principais responsabilidades é entender qual é a estratégia do negócio, trabalhar juntamente com nossas organizações corporativas de sourcing e logística, e então traduzir a estratégia em soluções apropriadas para os negócios. Eu apoio duas de nossas unidades de negócios: a divisão de Biociências Industriais e a de Nutrição e Saúde. Essas duas empresas são muito diferentes, existem diferentes linhas de produtos e também diferentes demandas de clientes. Um dos maiores desafios é chegar em cadeias de suprimentos diferenciadas. Porque cada um desses segmentos de negócios é único, dependendo do mercado que eles atendem. Os clientes individuais têm demandas muito exclusivas e pedidos variados. Com base nisso, não podemos olhar para uma única cadeia de abastecimento para todas as unidades de negócios e adotar uma abordagem que se encaixe em todas elas. Nós realmente precisamos ter uma compreensão completa do que a cadeia de cada negócio está procurando. E, então, devemos voltar e trabalhar com nossas equipes regionais de suprimento, fornecimento e logística para garantir que estamos colocando as soluções certas para os negócios e para os clientes.

Para ter uma visão geral: de quantos produtos (SKUs) estamos falando?

Milhares

Quais são as particularidades e as diferenças entre cada unidade de negócios que você lidera?

Eu diria que, para ambas as unidades de negócios, existem muitos requisitos diferentes. Alguns estão relacionados à qualidade de alimentos, temperatura e, em seguida, chegando ao mercado, também há requisitos específicos do cliente. No final, o produto será entregue para os clientes. Os clientes têm especificações e qualificações muito detalhadas que devemos atender. Então, dependendo da linha de produtos da empresa, devemos ter especificações distintas. Nem sempre é tão simples quanto enviar caminhões iguais ou contêineres iguais. Devemos nos certificar de que temos os documentos corretos requeridos pelo cliente e, em seguida, trabalhar com nossos principais fornecedores para garantir que possamos colocar as soluções certas para tal.

Eu imagino que você tem que lidar com tecnologia também. Existem ferramentas específicas que vocês já usam ou implementaram?

Do ponto de vista da DuPont, existem várias ferramentas de tecnologia por aí. O SAP é uma plataforma comum que as empresas usam e há vários módulos e versões para o negócio na plataforma, mas eu diria que seu uso é bastante padrão em todo o mundo. Quando se trata das unidades de negócios com as quais trabalhamos, uma das grandes coisas que começamos a investigar e nos envolvermos é o uso de tecnologia proativa de rastreamento. Estamos usando os dados de GPS para entender melhor onde nossos produtos estão na cadeia, para dar aos nossos clientes e fornecedores essa visibilidade.

Você já tem alguma iniciativa ou piloto usando Blockchain na DuPont?

Do ponto de vista do transporte, temos marcações de tempo de onde as coisas estão no processo. Mas, há tecnologias diferentes em cada um dos provedores de transporte com os quais trabalhamos hoje. Isso nos dá alguma visibilidade, mas muitas dessas coisas são capturadas em padrões internos específicos. Algumas das tecnologias que estamos utilizando são baseadas em GPS, o que nos dá mais visibilidade de rastreamento em tempo real. Nossos parceiros e clientes da cadeia de suprimentos podem usar o aplicativo, no qual eles podem ver exatamente onde a remessa está no momento atual.

Vocês têm alguns parceiros de transporte preferenciais ou há muitos parceiros diferentes para diferentes países?

Temos muitos parceiros que confiamos em todo o mundo. Do ponto de vista de transporte e armazenagem, temos alguns fornecedores que consideramos estratégicos e estabelecemos parcerias de longo prazo com eles. Dependendo da necessidade do negócio e da complexidade da solução necessária, contamos com nossos parceiros estratégicos para ajudar a montar a solução para os clientes. Um grande objetivo nosso dos últimos 5 anos, foi nos tornarmos mais estratégicos quanto ao tipo de mercado e o modo como o transporte está definido em algumas regiões, onde a capacidade é muito pequena. Quanto mais nos associamos aos fornecedores e nos tornamos mais estratégicos no pensamento de longo prazo, mais podemos trabalhar exatamente para identificar e propor soluções vantajosas para todos, considerando não só os lados tático e transacional.

Vocês também colaboram com outras empresas? Eu vejo a colaboração e a economia colaborativa como uma tendência que já está funcionando muito bem em alguns campos, e a tecnologia está ajudando. Existem algumas empresas que também cooperam com seus principais concorrentes. Você tem algumas iniciativas para obter as sinergias e benefícios econômicos da colaboração?

Estamos sempre procurando aprender, crescer e expandir nossa base de conhecimento. Por isso, trabalhamos com muitas empresas e consultores em todo o mundo. Trabalhamos com muitas organizações comerciais, com o Instituto de Gestão da Cadeia de Suprimentos, APICS, trabalhamos muito perto e temos algumas associações corporativas com eles. Isso nos mantém nas redes certas, então continuamos colaborando. Estamos sempre em um caminho contínuo de aprendizado com nossos concorrentes. Logo, temos que nos certificar de que estamos nos movendo da mesma forma que o mercado, porque se conhecemos nossa concorrência e sabemos o que eles farão, podemos dar aos nossos clientes mais visibilidade e chegar a certos mercados mais rapidamente do que a nossa concorrência. Estamos sempre procurando ver o que podemos fazer, avançar nossa tecnologia e fortalecer nossa cadeia de suprimentos.

Você tem um exemplo de um projeto que envolve colaboração?

Nós simplificamos alguns dos nossos processos e alguns de nossos principais fornecedores. Por exemplo, uma de nossas principais iniciativas e estratégias é que tentamos nos manter à frente do mercado e manter uma cadeia de suprimentos capaz de minimizar danos em nossas fábricas, transportadoras e clientes. Normalmente, teríamos uma grande base de operadoras que selecionaríamos para remessas individuais de nossas fábricas para nossos clientes. Quando começamos a entrar no caminho estratégico, vimos o que poderíamos extrair para agregar valor extra à cadeia de suprimentos. Fomos a uma dessas principais operadoras solicitando propostas sobre como elas administrariam essa cadeia de fornecimento de ponta a ponta, de nossas fábricas até nossos clientes, através do transporte a granel com caminhões na América do Norte. Eles voltaram com a proposta e basicamente nos mostraram como poderiam lidar com uma operação dedicada. Acabamos em um processo colaborativo por muitos meses, sempre olhando para trás e para frente para definir como poderíamos fazê-lo funcionar. No final, montamos um plano onde podemos garantir a capacidade para os clientes e ser gerenciados com apenas um fornecedor. Funciona como um loop contínuo: nós enchemos os caminhões, as colocamos em um pátio de armazenamento e, quando o pedido chega, os motoristas partem desses locais e então começa tudo de novo. Também colocamos algumas cláusulas de produtividade no contrato. Elas nos mantêm honestos, é uma espécie de ganha-ganha, nós temos uma visão compartilhada e compartilhamos recompensas nessa relação.

Eu acho muito interessante considerar alguns fornecedores de transporte não apenas como fornecedores, mas também como parceiros, para um longo relacionamento. Às vezes é difícil analisar, capacitar, desenvolver um fornecedor para depois alterar esse fornecedor.

Essa é uma das coisas das quais sempre falamos. Estamos trabalhando com as diferentes unidades de negócio, portanto, o impacto das mudanças na cadeia de suprimentos deve ser mínimo ou inexistente para nossos clientes. Para qualquer alteração que fizermos em nossa base de operadoras, devemos nos certificar de que não interromperemos nossa cadeia de abastecimento. Quando temos soluções estratégicas e players de longo prazo, isso dá confiança aos nossos clientes e nós sabemos que temos um parceiro em quem podemos confiar por um longo prazo. Não precisamos aumentar os preços todos os anos e é mais do que matemática, é TCO (custo total de aquisição), confiança no serviço, preço, qualidade, segurança…

Vocês também tentam introduzir iniciativas sustentáveis ​​em sua cadeia de suprimentos?

Essa é uma das coisas que buscamos. A sustentabilidade é um dos principais pilares que continuamos investigando e trabalhando. Temos iniciativas corporativas com fins de sustentabilidade e, do ponto de vista da cadeia de suprimentos, essa é uma das coisas que estamos analisando. Estamos começando a ver a sustentabilidade como uma métrica fundamental que estaremos monitorando à medida que avançamos. Sabemos que o mercado está pedindo por isso. Como a DuPont é uma organização do tamanho que é, devemos ter padrões de sustentabilidade e também quando se trata da cadeia de suprimentos.

Falando um pouco sobre tecnologia e tendências futuras, dentre as principais tendências tecnológicas (IoT, blockchain, impressão 3D e assim por diante), qual delas vai ter o maior impacto nas cadeias de suprimentos, na sua opinião?

Do meu ponto de vista, eu acho que qualquer coisa que der visibilidade e informação aos nossos clientes, e nos tornar capazes de ser proativos e não reativos, será um benefício no mercado. Eu sei que há todas essas tecnologias diferentes por aí, e agora estamos trabalhando no processo de descobrir quais são as ferramentas que queremos começar a implementar. Como o mercado está definitivamente exigindo isso, quanto mais informações pudermos confiar e agregar algum valor à nossa cadeia de suprimentos, mais visibilidade teremos, melhor estaremos colaborando e reagindo às situações que surgem no mercado.

No Brasil temos falado bastante sobre análise de Big Data aplicada ao Supply Chain. Eu acho que isso pode ser uma boa fonte de informação, considerando rastreamento de bens e produtos, além de obter medidas da satisfação do cliente.

Que conselho você daria a uma pessoa que está começando uma carreira neste mundo de logística?

Eu diria que é uma daquelas profissões que é diferente a cada dia. Não importa se você está falando sobre o gerenciamento da cadeia de fornecimento ou sobre logística especificamente, armazenagem, alfândega e comercial… Há muito no que se envolver, se há interesse em logística, há caminhos diferentes que você pode adotar. Uma das coisas que eu sugeriria é que, quando você é jovem e começando a carreira, descubra se você gosta de uma dessas áreas específicas e apenas continue a crescer nela. Porque se você olhar para todos os produtos e serviços que estão por aí, como temos que levar mercadorias de um lado do mundo para o outro, há muitas coisas que precisam acontecer e muitas pessoas tocam o processo. Uma coisa que acontece muito é que você não conhece toda a cadeia. Então, há muito o que aprender o tempo todo e você precisa manter sua mente aberta para isso. Outro grande ponto é que muito disso se resume a relacionamentos. As relações que você constrói com seus clientes internos, colegas, com o mercado, com fornecedores são muito interconectadas. Tudo é muito excitante, muito dinâmico, especialmente em um mercado global, porque o mercado muda o tempo todo e em taxas muito rápidas.

Relacionado a isso, o momento está cheio de oportunidades para os jovens começarem a carreira no Brasil. É um momento muito empolgante em termos de como a tecnologia em rápida mudança nos dá a oportunidade de dar suporte para fazer coisas que eram mais difíceis no passado. Por outro lado, o número crescente de SKUs, entregas no mesmo dia e requisitos do consumidor também estão trazendo maior complexidade para as tarefas da cadeia de suprimentos.

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