Entrevista com Jorge Bandenay – Coluna Mundo da Logística

09/10/2018 - SCAMBO

Paulo Oliveira escreve a Coluna “Mundo da Logística” para a Revista Mundo Logística, na qual entrevista executivos de Supply Chain de diferentes países. Confira a entrevista com Jorge Bandenay, publicada na edição 65, JUL/AGO 18 da revista. 

Jorge Bandenay 

Jorge Bandenay é um executivo de mercado com visão de mundo. Essa é uma característica de altos executivos, mas o Jorge viveu na pele diferente realidades de países e operações, com passagens por diferentes indústrias (tabaco, automotiva, serviços) e diferentes países (Peru, Brasil, Alemanha…).

Nesta agradável conversa que tivemos, não apenas fica claro o quanto ele gosta da área que atua e do foco em desenvolvimento de capital humano, mas também como as mudanças estão mesmo acontecendo e o quanto podemos – e devemos – usá-las para melhorar nossa gestão, nossos resultados.

[Paulo]: Como você começou em logística?

[Jorge]: Eu comecei a trabalhar com logística muito cedo, quando terminei a escola comecei a trabalhar para uma empresa marítima, essa empresa era a parte da Hapag-Lloyd no Peru. Depois eu fui para a universidade, mas sempre quis estar no ramo da logística.

Então você começou a trabalhar com logística antes da universidade, logo depois do ensino médio?

Eu frequentava uma escola Alemã em Lima (Peru), esse tipo de escola tem um modelo de educação duplo, isto é, logo depois do ensino médio, os alunos vão para uma escola técnica por 2-3 anos. Então você pode aprender sobre produção, logística, comércio internacional… Esse tipo de ensino é muito prático, você utiliza metade da semana para um conhecimento acadêmico e na outra metade você frequenta uma empresa, o que se torna uma formação bem completa. Nessa escola eu estudei comércio internacional, meu trabalho era ajudar o coordenador do porto com os navios e no lado comercial, procurando carga para a Hapag-Lloyd no Peru. Eu realmente gostava do que fazia e isso foi o que determinou que minha carreira fosse toda em logística e supply chain.

A logística, em um sentido acadêmico, começou no Brasil há cerca de 10 anos, acredito que você tenha mais experiência que isso, é bastante novo para nós ter logística na sala de aula. Isso já é uma grande diferença, o que é bom.

Esse não é o modelo de educação mais comum no Peru também. Isso aconteceu porque eu estudava nessa escola alemã, na Alemanha é comum começar em uma educação técnica bem cedo.

Interessante, então você teve uma boa oportunidade.

 Onde você já trabalhou na cadeia de suprimentos? Eu sei que você trabalhou em Sourcing  e Procurement, você mencionou a área comercial… Quais outras áreas você trabalhou?

Eu diria que minha carreira, até agora, se resume em duas empresas. A primeira British American Tobacco, onde trabalhei por 13 anos. Alguns anos fui o gerente logístico responsável pela carga internacional, clientes, armazenagem e distribuição do produto, cigarros, no mundo. Depois fui gerente de produção por 2 anos em uma fábrica, em seguida mudei para Europa, onde comecei a focar minha carreira em Procurement. Nesse sentido, acho que cobri todas as áreas da cadeia de suprimentos: planejamento, produção, distribuição, armazenagem, e também Procurement. Eu trabalhei para BAT até 2012, desde então estou trabalhando numa indústria farmacêutica chamada Merck, basicamente em Procurement.

Você trabalhou com armazenagem e distribuição, que é o final, planejamento, que, vamos dizer, o meio, e depois produção, o começo da cadeia de suprimentos… Qual dessas você gosta mais, ou é mais difícil, desafiador?

Eu prefiro Procurement. Acredito que Procurement te dá a oportunidade de ver diferentes categorias… Você pode ver um projeto logístico, um projeto de distribuição, armazenagem, marketing, então existe uma variedade grande no que você trabalha e isso é o que eu gosto.

É bem diferente, mas acho que há um pouco de negócios no final, certo?

Exato.

Então você trabalhou no Brasil, Europa, Peru… Qual o país mais difícil para fazer logística?

Depende. A América Latina é complicada: longas distâncias, muitas vezes fornecedores não são confiáveis. A Europa é como um país onde você tem boa infraestrutura e muitas empresas grandes, isso faz uma enorme diferença. É mais desafiador quando você tem um fornecimento em um local no qual você não tem fronteiras abertas. Na Europa não existem fronteiras, na América Latina temos grandes países com fronteiras, isso torna a operação muito mais desafiadora.

Você mencionou infraestrutura, fronteiras…, e o trabalho com as pessoas?

O que muda nos diferentes mercados é a confiabilidade. Ainda existe muita informalidade em nossos países, por exemplo, quando você envia uma carga, já pensa que a carga está no caminho, mas na realidade o motorista está procurando por outra carga para operar com carregamento máximo. Esse tipo de coisas podem acontecer na América Latina pois nossa cultura é mais informal, onde em outros países com modelos de negócios mais modernos ou evoluídos, as pessoas tendem a ser mais sérias.

O que é uma boa coisa, mas você acredita que a flexibilidade dos trabalhadores latino-americanos pode ajudar em alguns casos? Uma coisa que é positiva em nós é a flexibilidade, somos potencialmente mais ágeis, apesar de não sermos tão organizados em termos de processos.

Sim, está certo. Às vezes a flexibilidade é positiva, às vezes não. Eu não poderia dizer que um ambiente de trabalho é melhor que o outro, mas eventualmente a informalidade em nossos países é algo que afeta negativamente a operação, não só na mão de obra mas também nos fornecedores.

Você tinha um time global na BAT, certo? O que muda ao trabalhar com times globais, pessoas de diferentes países, em Supply Chain?

Em nível global, algumas ideias fazem sentido, mas devemos ter um entendimento de quão aplicável em nível local são as decisões tomadas. O que pode ser bom para a Europa, EUA, Japão, não necessariamente vai ser uma coisa boa no Brasil ou América Latina. É importante que as pessoas que estão tomando decisão em nível global saibam muito bem como as operações ocorrem localmente, então não haverá problemas na implementação.

Você mencionou Europa como um grande país, eu li muito sobre como eles cooperam e como eles tentam alinhar a legislação e normas para facilitar o trabalho no continente… Quando se fala sobre Brasil, por exemplo, nós temos muitas taxas diferentes, maneiras diferentes de lidar com as coisas, alguns estados dificultam fazer a logística… Quanto à complexidade de algumas culturas latino-americanas, qual o melhor exemplo na América Latina de “um grande país que ajuda a logística”? 

É difícil generalizar porque sempre depende da indústria. Não é a mesma coisa no transporte de açúcar e remédios. Acredito que a infraestrutura está melhorando, mas ainda não somos o melhor. Eu vejo desafios em nossos países quando você precisa de algum suporte com a carga (controle de temperatura, por exemplo), há problemas com a segurança também, isto é, garantir que a carga vai chegar “on time in full”. Essas coisas fazem diferença quando você trabalha na America Latina comparando com outros países.

A Legislação também muda, em países como EUA e Europa a legislação é parecida em todos os lugares, existem leis europeias que se aplicam em todo o continente. Em nosso caso, a lei é fragmentada, pode existir uma carga que voa com a regulação do Peru, e, ao cruzar a fronteira com o Chile, outras regras se aplicam, isso faz a operação muito complicada. Mas, se compararmos a situação atual com 20 anos atrás, definitivamente houve uma grande melhora.

Há boas notícias finalmente. Quais são os maiores desafios de Procurement?

O mais difícil da indústria farmacêutica é encontrar fornecedores que você possa confiar. Muitos produtos precisam de controle de temperatura e de outras características, às vezes é muito difícil garantir que os fornecedores respeitarão todas as restrições que colocamos. Não só na distribuição mas também na armazenagem. É complicado conseguir tudo que você precisa com o custo certo, a infraestrutura é limitada…

O problema maior é a falta de opções de fornecedores, ou existe alguma variedade de fornecedores mais baixa, e com custo alto?

Às vezes você não tem opção. Não é só a questão do custo, é uma questão de variedade. Na nossa empresa há um setor farmacêutico e um setor químico… No nosso setor químico, nós precisamos de muita infraestrutura de armazenagem, pois temos explosivos, carga perigosa, e é difícil em muitos países encontrar parceiros que consigam lidar com nossos requerimentos.

Quanto às pessoas, quais são os desafios com seus times?

Nós treinamos bastante nossos empregados, porque segurança é muito importante para nós e para que as operações sejam mais rentáveis, o que é bom. O que mais me preocupa são as pessoas fora do nosso controle, fornecedores e autoridades. Eventualmente nós temos que lidar com leis muito difíceis de concordar, e acredito que ainda temos que melhorar nosso conhecimento sobre quão economicamente viável a cadeia de suprimentos pode ser. 

Nesse sentido, como você faz para atualizar você e seu time? Vocês participam de cursos, aulas, seminários, utilizam a internet? Como vocês se mantêm atualizados com as tendências, cases novos, etc, em termos de conhecimento interno?

Nossos treinamentos vem de dentro da própria empresa, em nível local nós somos generalistas, e temos especialistas globais em cada setor. Então quando precisamos de conhecimento específico nós podemos contatar times especializados e recebemos suporte deles. Por exemplo, temos um especialista em logística, chamado de Diretor de Logística de Categoria Global, quando vamos fazer algo relacionado a logística, nós o contatamos e recebemos as orientações sobre como negociar, como fazer um contrato, escolher um fornecedor, quais APIs…

Vemos muitas tendências surgindo, indústria 4.0, economia colaborativa, economia circular… Como você enxerga isso surgindo dentro da sua empresa, seus processos, pessoas? Especialmente sobre digitalização, internet das coisas? Está acontecendo, vai acontecer em breve? Como você vê essas tendências entrando no seu dia a dia?

Nossa empresa é muito ligada em transformação digital, especialmente no lado comercial. Estamos explorando mais maneiras de melhor se comunicar com nossos clientes, acredito que todos estão pensando sobre usar ferramentas digitais para marketing, mas ainda existe um gap no lado do supply. Então, comparando o que nós usamos como fonte para marketing 10 anos atrás com o que usamos agora é totalmente diferente. O ponto em que estamos agora, e outras categorias como logística, é aprender como extrair valor da tecnologia aplicada a logística, melhores maneiras de garantir segurança em armazéns, melhorar a distribuição… Agora a tecnologia ocupa um grande espaço e todas as pessoas envolvidas com supply precisam aprender como lidar com essa transformação.

E isso é bem rápido inclusive. Uma coisa que eu penso sobre Procurement, negociação, é o uso de dados, potencialmente big data, e escuto muito sobre a falta de experiência na análise de dados. Você têm pessoas que podem fazer isso para você? Pessoas que usualmente são mais analíticas, que sabem lidar com a grande quantidade de dados que, muitas vezes, são dados ruins, como você enxerga isso?

Acredito que, como todas as companhias, estamos aprendendo. Temos muitos dados e precisamos analisar o que é útil e o que não é. Eu sou responsável por alguns países e vejo que um dos nossos subsidiários desenvolvem uma estratégia por 1.000 euros, outro desenvolve uma estratégia por 100.000 euros, e qual o melhor? Acho que devemos entender qual o propósito desses esforços para ver qual o fornecedor e a estratégia correta. Ainda estamos aprendendo, nosso pessoal de marketing ainda está aprendendo… É útil usar o Facebook? Ok, mas como? Aumentando o número de curtidas? Esse é o ponto exato em que estamos agora em nossa transformação digital.

Existe muito conhecimento a ser pensado e incorporado…

Para mim o maior desafio é entender como a grande quantidade de dados pode ser traduzida em informação útil, insights. Tem muita coisa por aí, você deve filtrar o que vai ser bom para o seu negócio, combinar com o conhecimento tecnológico e no fim isso pode ajudar a posicionar sua marca ou chegar junto dos clientes.

 Você acredita que as pessoas estão mais assustadas com essas novas tecnologias ou mais animadas?

Ambas. Isso vai acontecer de qualquer maneira, então é melhor investir em entender melhor, se preparar, ou então daqui 5 anos você vai estar obsoleto.

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