Entrevista com Edward Crespo Quinta – Coluna Mundo da Logística

28/02/2019 - SCAMBO

Paulo Oliveira e Eduardo Magalhães escrevem a Coluna “Mundo da Logística” para a Revista Mundo Logística, na qual entrevistam executivos de Supply Chain de diferentes países. Confira a entrevista com Edward Crespo Quinta, publicada na edição 67, NOV/DEZ 18 da revista. 

LogísticaEdward é claramente um entusiasta da cadeia de suprimentos. Mesmo trabalhando pelos últimos 12 anos na cervejaria multinacional espanhola Mahou San Miguel, ele fala sobre desafios, planos e oportunidades como um executivo recentemente contratado. Ele não tem apenas uma agenda de crescimento internacional para prosseguir, mas também aulas para participar como professor de MBA. Colocando juntos o histórico de Operações e Negócios, ele consegue incluir a Cadeia de Suprimentos como um pilar estratégico na empresa, nos dando insights sobre como fazer isso. Então, por favor, aproveite a agradável conversa que tivemos.

[Paulo] Olhando para os números da Mahou San Miguel, vocês têm uma enorme presença em todo o mundo, 70% de toda a cerveja espanhola vendida no mundo, em mais de 70 países… Como é sua participação neste processo de crescimento? Estamos falando de uma empresa de 127 anos que continua crescendo …

[Edward] Sim, ainda está crescendo e tenho a honra de estar na unidade de negócios internacionais nos últimos 8,5 anos. Quando comecei, tínhamos cerca de 1/3 do que fazemos agora na perspectiva de negócios internacionais. Estávamos na unidade principal e em alguns países, agora temos uma boa pegada em todo o mundo.

Atualmente estamos investindo nos EUA, compramos ações de duas empresas de lá. Uma delas é a “Founders Brewing Co”, de Michigan, que é a empresa de cerveja que mais cresce nos Estados Unidos – agora 30% da empresa pertence a nós. Temos outro investimento no Colorado, na “Avery Brewing Co”, onde temos 40% das ações. É uma ótima oportunidade para crescer, e definitivamente é um bom momento para estar na Mahou San Miguel, uma empresa que lidera o mercado espanhol há 127 anos, mas que agora está indo para outros países e investindo em outras cervejarias, como nos EUA… É uma boa história para estar envolvido.

Você já trabalhou para Mahou San Miguel por um bom tempo, como você se mantêm motivado e atualizado?

Fazem doze anos desde que comecei. Eu venho trocando de posições a cada 2 ou 3 anos, portanto, venho adquirindo experiência em todos os campos: vendas, finanças, algumas posições diferentes em logística, mas sempre relacionadas a negócios internacionais. Hoje, sou o Diretor de Logística Internacional, e sempre tento me manter informado sobre como está o mercado em uma perspectiva internacional. Eu comecei meu mestrado em negócios internacionais enquanto já estava trabalhando na Mahou. Além disso, eu viajo bastante, então vejo muitas coisas em diferentes países e diferentes rotas logísticas para o mercado, participo de seminários…

Eu sei que você também ensina, o que certamente ajuda a se manter informado, atualizado, por dentro das inovações e tendências. Como você se tornou professor? O que te trouxe de volta à escola?

Tornei-me professor porque gosto de compartilhar com a geração jovem minhas experiências e minha visão de como as coisas estão se desenvolvendo nos negócios. Eu lembro que, quando eu era estudante, a melhor coisa que poderia acontecer na aula era ter alguém para trazer exemplos de vida, realidade da perspectiva de negócios, agora eu tenho a oportunidade de compartilhar com eles e estou muito feliz por poder fazê-lo.

Como você consegue encaixar isso na sua agenda, especialmente agora, viajando muito?

É bem apertado! Eu faço nos fins de semana basicamente, sextas e sábados … Eu tenho uma turma de meio curso, que são cerca de 8 aulas por ano, e tenho que agendar meus voos com antecedência.

É uma turma de negócios ou estudantes da cadeia de suprimentos em geral?

A turma é do MBA Internacional na “Universidad Salamanca”, a universidade mais antiga da Espanha e a segunda mais antiga do mundo. Eles têm um bom programa para a escola internacional de negócios. Minhas aulas são sobre como implementar a logística na negociação.

É interessante que você tem uma grande experiência em negócios e agora, pelos últimos seis anos, você está mais envolvido com cadeia de suprimentos e logística. Uma coisa que sentimos falta no Brasil são executivos da Cadeia de Suprimentos com um histórico de negócios robusto. Eles estão mais no lado operacional e menos nas negociações. Como você se classificaria: está mais envolvido com negócios ou operações? Como você usa as duas experiências para crescer, uma vez que está em uma empresa em fase de expansão dos seus negócios e também tem o desafio de integrar operações e obter sinergias, consolidação e assim por diante?

No passado, Logística era apenas o lado operacional, ao qual eu não prestei muita atenção. No entanto, aqui na Mahou San Miguel, pude ver que a logística e a cadeia de suprimentos são tão importantes nos negócios internacionais que, no final, é a maior parte da cadeia internacional. Não só o transporte marítimo, mas também todos os clientes e o serviço ao cliente envolvido, enfim, são praticamente 80% dos negócios internacionais. Portanto, integramos isso desde o primeiro momento. Eu tenho que estar envolvido na maioria dos projetos, a fim de negociar em termos de rendimentos internacionais e em termos de logística, muitos deles são cruciais para um acordo internacional. Nos contratos que fazemos precisamos ter certeza de que está refletido tudo o que mais tarde pode causar custos extras. Por exemplo, se tivermos uma previsão de entrega e algo der errado com a embalagem, o que acontecerá se essa carga não for entregue? Todas essas pequenas coisas, quando se trata de negócios internacionais, são muito caras, então você precisa prever todos esses mínimos detalhes que podem causar grandes problemas que afetam seu P&L.

Outro desafio quando se trata de negócios internacionais é que fica ainda mais difícil investir em sustentabilidade. Você pode fazer isso muito bem em suas plantas de produção, mas quando você se torna global, você tem que pensar inúmeras vezes para obter uma boa iniciativa sustentável. Vocês têm investido em sustentabilidade? Como você vê essa tendência chegando e crescendo? Existe uma consciência crescente em termos de sustentabilidade?

Na verdade, nossa estratégia é ser sustentável. É algo que realmente consideramos importante para nossa empresa e que gostaríamos de compartilhar com nossos clientes e nossa sociedade. Além disso, é nossa responsabilidade sermos sustentáveis para o futuro, para a Espanha e para outros países onde temos negócios, portanto, estamos sempre buscando trazer sustentabilidade a todas as mudanças na cadeia de suprimentos. Se você aplicar uma estratégia sustentável, ao mesmo tempo, você acaba sendo eficiente em termos de custos. Se você tentar reduzir a pegada de carbono, reduzirá automaticamente os custos de sua logística, talvez você utilize algum outro tipo de transporte que seja mais eficiente e, portanto, mais econômico. É algo que acreditamos ser estratégico para a empresa e precisamos fazê-lo.

Em uma visão de médio e longo prazo, definitivamente é rentável, mas a curto prazo nem tanto, então as pessoas acabam não fazendo muitas coisas nesse sentido e, no final, isso sairá caro.

Eu concordo totalmente, e esse é o ponto bom, a visão de longo prazo. Nós temos sorte que nossa empresa ainda pertence a uma família, a família Mahou. Eles gostam e investem em projetos de longo prazo, por isso não temos esse foco nos números de curto prazo. Alguns dos nossos concorrentes estão no mercado de ações e eles precisam sempre mostrar grandes números. Por outro lado, nós podemos fazer projetos de longo prazo que são principalmente focados na sustentabilidade e dar um retorno à sociedade. Algumas empresas se livram de cervejarias menores que não são tão eficientes, mas fazemos o contrário. Temos esse compromisso com a sociedade e as cidades onde as cervejarias estão instaladas, por isso, mantemos e investimos em todas elas para sermos mais eficientes e mais sustentáveis. Acredito que isso no futuro trará muito para a sociedade.

Há muita discussão sobre ter um “significado” para o negócio agora, um propósito, algo além do lucro. Em uma empresa familiar, que pensa a longo prazo, esse propósito e significado estão lá desde o primeiro dia. Considerando o que você disse, é algo maior que a própria margem.

Você tem uma longa carreira, e agora você tem uma carreira internacional, então você está em contato com todos esses diferentes tipos de pessoas e empresas. Eu acredito que Supply Chain e Logística estão mais interessantes do que eram no passado, e é mais atraente estar na logística hoje, está mais ligado a negócios do que antes. Como você acha que um jovem profissional em logística e operações pode se tornar um executivo de Supply Chain? Quais são os principais desafios?

 Os principais desafios de hoje em dia estão relacionados à necessidade de manter-se eficiente em termos de tempo e nível de serviço, mas ao mesmo tempo trazer algo que agregue valor. Do ponto de vista logístico, primeiro você precisa ser mais comercial, mais próximo das vendas e mostrar aos clientes como o conhecimento da logística pode trazer muito para o negócio e para a negociação. Nos EUA, quando você negocia com os distribuidores, 90% da conversa de uma venda está relacionada à logística. Eles estão preocupados com os estoques e os prazos de entrega neste tipo de negociações, porque existem várias marcas no mesmo distribuidor. Portanto, isso traz a conversa para um nível que, se você não sabe Logística, você estará em um grande problema. O futuro da logística é estar realmente próximo das vendas, trazer para a negociação o conhecimento da eficiência de custos e, ao mesmo tempo, mostrar aos clientes finais como o controle da sua cadeia de suprimentos pode ser eficiente. Não só isso, mas gerenciar seus SKUs, rotações, datas de validade, etc.

O segundo grande desafio serão todos os processos de digitalização que estão chegando nas cadeias de suprimentos. Estão surgindo muitos aplicativos e dispositivos que podem fornecer atualizações em tempo real, e você precisa inserir isso em sua cadeia de suprimentos para usar os dados de forma eficiente para agregar valor ao seu negócio.

Então você abre espaço para pessoas de outras áreas virem para logística e cadeia de suprimentos. No passado, isso era ainda mais difícil. Você tem uma passagem no lado comercial/vendas em sua carreira também, como foi a transição em sua carreira de vendas para logística?

Neste momento, meu principal dever é ser o diretor de logística para negócios internacionais, mas cuido das vendas nos mercados dos EUA e Canadá. Tudo está relacionado à logística e, eventualmente, meu gerente decidiu que seria melhor que eu cuidasse desse mercado vindo do ponto de vista da logística. Assim, estar próximo de um mercado mundial que avança é como trazer a logística para as prateleiras, colocando Operações e Vendas na mesma cadeira, trazendo valor real aos clientes, distribuidores e à empresa.

O que você faz nos EUA, e provavelmente vai acontecer em breve em outros países, espero que no Brasil também, é que você mesclou logística e vendas, agora você tem o lado técnico do entendimento e também o lado da negociação. Atualmente é incomum ter alguém que esteja fazendo operações e vendas ao mesmo tempo. Você acha que isso será mais comum em um futuro próximo?

Eu vejo isso como algo único apenas pela situação da empresa e projetos que temos em prática. No entanto, vejo mais como o papel da logística se aproximando das vendas, e sendo mais eficiente para a negociação. Tenho a oportunidade de ter a negociação de vendas dentro das minhas responsabilidades, já que na maioria das vezes, enquanto a empresa está tratando do lado operacional, eu estou com os clientes aqui em Tampa Bay. Eu trarei algumas oportunidades para reduzir os custos deles e os nossos, para podermos passar o investimento para fins de marketing. Assim, para a nossa marca, é muito melhor gastar um euro em marketing e comunicação do que gastar em logística. Esse deve ser o objetivo de qualquer departamento de logística: reduzir custos para investir em marketing, toda empresa vive por causa das vendas.

Normalmente, a logística está tentando ser rentável e, em seguida, o lado de marketing e vendas estão tentando negociar um novo espaço de mercado. O que você está fazendo é as duas coisas ao mesmo tempo, economizando dinheiro em Operações junto com todas as partes interessadas para investir em marketing.

Uma coisa que discutimos muito aqui é sobre todas essas tendências. Você mencionou big data analytics, aplicativos e como os consumidores podem estar mudando a maneira de ver esses serviços. Ainda assim, os prazos de entrega estão ficando menores, eles querem mais SKUs… Eu vejo que você, na Mahou San Miguel, tem muita inovação sempre trazendo novos SKUs, novas formas de entregar mercadorias. Quais são as principais tendências que estão afetando a cadeia de suprimentos, considerando a perspectiva do consumidor, tendências, tecnologias?

Em uma perspectiva de logística, essas novas tendências e inovações são: novos SKUs, tamanhos menores de lotes, muita rotação de estoque, tudo está sempre trazendo complexidade para a cadeia de suprimentos. Ao mesmo tempo, oferecer novidades aos clientes agrega valor ao seu portfólio. Portanto, sempre será bom ter novos SKUs, especialmente em uma perspectiva de marketing, para melhor construir as marcas. Também será menos rentável do que a produção em massa, o que é outro desafio. No final, é algo que é necessário implementar, e as cadeias de suprimentos precisam adaptar o processo que temos para grandes produções a serem substituídas por pequenas produções. O principal desafio para as empresas é conviver com os dois tipos de produção ao mesmo tempo.

Você mencionou as bebidas e empresas que vocês estão adquirindo. No Brasil, grandes empresas estão comprando as pequenas e trazendo SKUs todos juntos. Você quer oferecer mais SKUs e mais diferenciação, mas tem o desafio de integrar negócios e operações. O que vemos aqui é que as grandes cervejarias tentam, de alguma forma, combinar sinergias com outras cadeias de suprimentos, geralmente se aproximando de empresas de alimentos e bens de consumo. Logo, há muita colaboração, que é um conceito muito interessante, mas difícil de implementar. Vocês já possuem sinergias em sua cadeia de suprimentos, mas como vocês gerenciam sinergias com outras cadeias de suprimentos e como vocês podem colaborar e integrar?

Acho que a melhor coisa a fazer é saber que seus processos podem não ser os melhores para essa nova situação. Quando você está adquirindo parte da empresa, como estamos fazendo aqui nos Estados Unidos, é obrigatório considerar que eles estão gerenciando volumes diferentes do que nós, talvez eles saibam melhor como gerenciar pequenos volumes do que nós. Então, o melhor que você pode fazer é não integrar no primeiro momento. Inicialmente, você deve passar por um processo de se conhecer e detectar onde estão as sinergias, e então integrar os processos dos pequenos lotes e SKUs altamente rotacionados. Então, também há coisas boas para trazer da empresa grande para a pequena, como planejamento, processos ou até mesmo processos internos que você usa. No final, é um grande percurso de aprendizado, aprendendo uns com os outros e depois integrando e descobrindo todas as sinergias de ambas as partes.

Devo dizer que nem todas as empresas e nem todos os executivos estão “abertos para aprender”, o que é claramente uma perda de oportunidade. Por isso, é outro aspecto incomum que você tem, o que é realmente interessante.

Temos visto no Brasil – e isso também acontece nos EUA – o movimento de startups de logística, trazendo todos esses aplicativos e algoritmos para as operações. Geralmente vemos essas empresas puxadas por jovens trazendo coisas novas, interrompendo nossa maneira de gerenciar estoques, transportes … Isso também está acontecendo na Espanha? Você vê essas pequenas empresas de tecnologia focadas em logística? Você tem tentado abordá-los?

Os jovens estão trazendo muitas coisas novas e coisas para desenvolver e melhorar muitas das atividades do supply. Claro, às vezes elas não são úteis para o seu tipo de negócio, mas às vezes sim. Trabalhamos com vários e temos um acelerador de startups na empresa. Assim, damos crédito a eles para que eles possam mostrar seus cases e investimos no que achamos que pode agregar valor ao nosso e a outros negócios.

Quais você acha que são as principais qualidades e habilidades dos profissionais da cadeia de suprimentos da Espanha? O que você vê localmente na Espanha que é diferente e positivo em uma perspectiva global?

Os espanhóis trabalham duro. Há muito esforço no lado operacional e também no planejamento. Eu acho que eles são realmente prestativos, é bom ter um departamento da cadeia de suprimentos como esse. Eu diria que esta é a coisa mais típica que podemos ver em muitas das empresas que nos prestam serviços e falam pessoalmente para a nossa logística.

Você falou muito sobre sustentabilidade, integração e muitas coisas boas que vemos na perspectiva da cadeia de suprimentos, no entanto, quais são os maiores desafios em sua cadeia de suprimentos?

Da minha parte do negócio, que é internacional, o principal desafio nos próximos anos será com a indústria naval. Porque a indústria naval estará totalmente diferente nos próximos 5 anos. Algumas restrições e exigências podem estar matando a concorrência em breve, fazendo com que as empresas trabalhem em grandes grupos. Será mais difícil negociar com eles e teremos um aumento dos fretes em todo o mundo, o que já está acontecendo, mas, nos próximos anos, tenho certeza de que será em uma escala muito maior. Portanto, todas as empresas que têm negócios internacionais e enviam contêineres para o exterior, precisam antecipar isso, criando relações com esses principais players da indústria naval.

É muito importante para controlar sua cadeia de suprimentos que você ganhe poder de negociação com esses players em longo prazo. No final, o custo da cadeia de suprimentos será refletido em seu produto no país que você está vendendo, então é melhor que seja controlado por você. É necessário que você controle não apenas os custos, mas também a qualidade de seus produtos e como eles são entregues aos seus clientes finais. Esse controle não deve ser dado a qualquer outra pessoa além de você, sua empresa, porque é o seu produto, você se esforça muito com a qualidade e com a sua marca, então por que perder isso na última entrega?

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