Entrevista com Daniel More – Coluna Mundo da Logística

30/08/2018 - SCAMBO

Paulo Oliveira escreve a Coluna “Mundo da Logística” para a Revista Mundo Logística, na qual entrevista executivos de Supply Chain de diferentes países. Confira a entrevista com Daniel More, publicada na edição 64, MAI/JUN 18 da revista. 

 

Daniel é claramente um entusiasta da área de Supply Chain. Começando a carreira nesta área de forma não programada, como boa parte de nós, teve a oportunidade de ocupar posições globais em uma multinacional de alimentos, trabalhando em diversos países com questões como otimização de estoques e melhorias em processos de previsão de vendas.

Hoje atuando no Estados Unidos, Daniel tem uma formação bem globalizada, com graduação no Peru, seu país de origem, e MBA na Holanda. Conforme vocês verão na entrevista, ele é um executivo curioso e que gosta de trocar conhecimentos e ideias com pares e colegas.

 

[Paulo Oliveira] Como muitos de nós, você não iniciou sua carreira profissional em logística. Como foi seu primeiro contato com Supply Chain?

[Daniel More] Quando eu estava prestes a me formar em Engenharia Mecânica, no Peru, consegui um emprego de estagiário apoiando um gerente de planta em uma empresa de fabricação de fios e cabos. Muitas vezes, eu imprimia documentos nos escritórios da área de Planejamento de Produção e, um dia, o Gerente de Planejamento me perguntou casualmente se eu gostaria de ir trabalhar com eles. Eu disse que sim, pensando que ele estava perguntando se eu queria trabalhar para a empresa, na área onde eu estava. Ele esclareceu: “Não. Você quer trabalhar conosco no Planejamento?” Dois meses depois, recebi meu primeiro trabalho no Planejamento e adoro isso. Mais tarde, tirei a certificação APICS CSCP e fui trabalhar no exterior para uma empresa internacional de alimentos, onde eu assumi diferentes funções em Supply Chain.

Em quais áreas você já atuou na Cadeia de Suprimento?

No meu último cargo, antes do atual, eu atuei como um consultor interno da Cadeia de Suprimentos, visitando vários países para analisar possibilidades de melhoria na Cadeia de Abastecimento. As principais áreas de melhorias estavam ligadas à Otimização de Inventário, Melhorias de Previsão e Planejamento de Vendas e Operações. Antes disso, atuei também na área de fornecimento global de produtos (Global Product Sourcing), decidindo como otimizar uma rede de fabricação global para atender a diferentes países, mercados e produtos – as decisões buscavam capacidade, demanda, custo e regulação de conformidade nos mercados.

Dada esta sua experiência internacional, como você vê a atuação dos Estados Unidos, seu atual local de trabalho, em termos de suporte às operações logísticas?

A indústria alimentar e, em particular, a indústria de alimentos médicos está fortemente regulamentada nos Estados Unidos. Há não muito tempo atrás, a FDA [Food and Drug Administration, equivalente da ANVISA nos EUA] implementou um Programa de Verificação de Fornecedores de Alimentos. Isso alterou as regras do jogo, onde, como antes, os importadores podiam confiar em certificados de qualidade e segurança alimentar do fornecedor, porém agora é responsabilidade do importador avaliar a qualidade e a segurança alimentar do fornecedor.

Para o consumidor, a mudança é positiva, para o importador eles precisam rapidamente se tornar conhecedores de padrões de qualidade e auditorias. O importador que não passa a auditoria do FDA pode ver suas importações futuras pararem. Isso cria custos na cadeia de suprimentos, com riscos de desabastecimento.

E quais são hoje seus principais desafios?

No momento, estou trabalhando para levar o processo de Planejamento de Vendas e Operações (S&OP – Sales & Operations Planning) ao próximo nível. Um dos desafios é ser capaz de entender como a troca de vendas entre diferentes canais afetará a rentabilidade da empresa. Queremos analisar este processo não só com uma perspectiva de receita, mas também de uma perspectiva de custo, cada canal tem um custo diferente associado a eles. Ao ter esse entendimento, podemos criar políticas para maximizar os lucros.

Temos sempre uma curiosidade: quais outras áreas da empresa você, como profissional de Supply Chain, se aproxima na busca por melhorias, como esta ligada ao Planejamento?

As primeiras que penso são Finanças, Vendas e Marketing. Essas três áreas fornecerão informações sobre quanto produto produzir e qual é a demanda e as mudanças em vista no mercado. Os esforços de Supply Chain são para satisfazer a demanda, ao mesmo tempo em que maximizam os objetivos financeiros da empresa.

No que se refere à introdução de novos de produtos, Supply Chain precisa trabalhar com a área de Desenvolvimento de Produto para garantir que o novo produto possa incorporar recursos que permitirão, desde a fase de projeto, evitar ou resolver problemas ao longo da cadeia de suprimentos – por exemplo: levando em consideração restrições de espaço de armazenagem nos distribuidores, quantidades mínimas de produção ou limitação dos equipamentos de produção em termos tamanho.

E as equipes de operações nos EUA, estão preparadas para atuar em cadeias mais complexas, mais colaborativas?

O uso da tecnologia da informação está muito bem desenvolvido aqui nos Estados Unidos. Existem várias ferramentas de inteligência comercial e formas de analisar e obter dados e as equipes de operações estão sabendo fazer bom uso disso. Outra característica da força de trabalho norte-americana é o trabalho em equipe, tanto transversal quanto funcional, permitindo soma de expertises e experiências.

Pensando em força de trabalho e equipes, me veio a questão da 4a Revolução Industrial, a “digitalização da logística”. Quais você imagina que serão – ou estão sendo – os efeitos para as cadeias de abastecimento?

Esta é difícil de prever! Os avanços na tecnologia estão tornando os consumidores mais conscientes da sua opção em todo o mundo e o crescimento da Alibaba é uma prova disso, levando ao aumento da importação da China para os EUA. No entanto, a mesma tecnologia está criando mais eficiência em outros mercados, tornando-os mais atraentes devido a melhorias operacionais e melhor comunicação. Quem sabe se o novo fornecedor do mundo será o país que melhor aproveitar a tecnologia para sua vantagem?

Algumas das principais empresas não possuem ativos. A principal empresa de táxi do mundo não possui um único táxi (Uber), o grande concorrente na indústria hoteleira não possui propriedade (Airbnb). Talvez no futuro, teremos grandes fornecedores de logística que não terão uma única embarcação.

Então qual tendência atual que você percebe que está mudando a forma como gerenciamos nossas cadeias de suprimento?

Definitivamente, a tecnologia está mudando a maneira como podemos obter informações para empresas e consumidores. O consumidor e as empresas têm o poder do conhecimento e podem comparar diferentes fornecedores alternativos com menos custo. A entrega porta-a-porta de pequenas encomendas é uma tendência de escolha entre os consumidores e as empresas precisarão agilizar sua cadeia de suprimento ou se associar com o provedor logístico certo para poder entregar nesse nível.

Olhando um pouco para educação e formação, quais suas fontes de atualização?

Considero-me um auto-ditada, de modo que a maior parte do meu conhecimento é adquirido pela leitura e na base da “tentativa e erro” – executando e aprendendo com os erros. Quando encontro um desafio na minha vida profissional, procuro artigos em publicações reconhecidas da cadeia de suprimentos para buscar abordagens diferentes para resolver o problema. Na maioria dos casos, não encontraremos soluções que se encaixem exatamente no problema que temos, mas certamente irão dar algumas direções, combinando diferentes abordagens. Posso, assim, criar uma solução para o meu problema. Os livros são outra fonte de informação, mas, na maioria dos casos, são muito teóricos e há dificuldade em aplicar tais conhecimentos a um problema da vida real.

Por último, mas não menos importante, o debate com colegas de profissão é uma boa fonte de conhecimento e isso me ajuda a garantir que as soluções que proponho sejam pragmáticas e fáceis de implementar.

Nestes seus estudos, leituras e conversas, algo novo que você vem utilizando para compartilhar conosco?

Tenho usado, recentemente, ferramentas de business intelligence para melhorar nosso processo de Planejamento de Vendas e Operações (S&OP). Durante as reuniões de revisão da demanda, utilizamos painéis criados dentro da empresa, que podem fornecer visões diferentes, inclusive por SKU. Este nível de detalhe dos dados foi crucial para melhorar a precisão da previsão de vendas e ter diversas outras áreas do negócio trabalhando com outros KPI [key performance indicator – indicador-chave de performance], como a lucratividade por canal de venda e rentabilidade por SKU com base na classificação ABC. Esta nova visão está nos permitindo criar diferentes políticas de inventário e metas de nível de serviço dependendo da rentabilidade de cada grupo SKU.

No Brasil, estamos começando a sentir a falta de especialistas em análise de dados. Estes profissionais ainda não atuam em Supply Chain e, como você colocou, tais análises podem garantir ganhos significativos para o negócio. Pensando nisso, você acha que os executivos de Supply Chain devem voltar para escola?

O mundo continua mudando e mudando rapidamente, mas o ritmo de mudança dos currículos escolares muda a um ritmo mais lento do que a mudança mundial. Quando você vai à escola, você aprenderá métodos testados, que vem funcionado – ou talvez não – há anos no mundo. Não estou defendendo não voltar à escola, que é uma boa fonte de informação e conhecimento, mas manter líderes inovadores significa ter profissionais que procuram o que funcionará no futuro para a indústria e não necessariamente o que está funcionando hoje. Claro, existem alguns fundamentos que são necessários e importantes, mas os executivos são responsáveis para olhar além e liderar a organização para um futuro melhor. Fazer o que todos os outros no mercado estão fazendo não se qualifica como inovação.

Então quais tópicos ou assuntos devem ser parte de um curso de Educação Executiva em Supply Chain, tendo por foco gerentes de nível médio e sênior?

Na minha opinião, a Educação Executiva deve fornecer ferramentas para que continuemos aprendendo. E tais as ferramentas devem vir com recomendações para resolver problemas e, mais importante, com argumentos para convencer todos sobre como colocar essas ideias em prática. Cada profissional, dependendo de vários fatores – indústria que atua, país onde opera, ambiente competitivo que está inserido – terá que resolver diferentes desafios. Não há soluções padronizadas em Supply Chain.

Agora, quais tópicos se prestam para fornecer essas ferramentas para o aprendizado contínuo? Tópicos como análise de dados, estruturas de otimização, estatística, habilidades de comunicação para apresentar um projeto. Isso levará executivos para novas formas de pensar e, assim, para novas soluções.

Desafio nada fácil para as escolas e instituições de ensino. Para fechar, como surgem e como eliminar os chamados “custos invisíveis” de uma cadeia de abastecimento?

Eu acredito que uma das principais razões para o custo invisível está ligada a decisões passadas que não são mais relevantes, mantendo o status quo. Digamos que você é o gerente de produção de uma linha de produtos e tome a decisão de alocar a demanda de 20 países entre dois fornecedores globais. Você toma essa decisão com base na demanda de cada país, capacidade de cada fornecedor, custo de transporte, direitos de importação e outras restrições. Poucos anos depois, você se move para outra posição e a decisão que você tomou permaneceu em vigor sem ninguém desafiar. No entanto, durante esse período, muitas coisas poderiam ter mudado, que fez com que a decisão não fosse mais a ideal, coisas como um novo acordo comercial entre os países, mudanças desiguais no custo de transporte para rotas diferentes, incentivos fiscais, legislação etc.

Em geral, qualquer política adotada por muito tempo numa cadeia de suprimento é uma fonte de custos ocultos. Deixe-me dar-lhe outro exemplo: políticas de estoque não revisadas com frequência podem levar a um nível de estoque muito alto, o que pode esconder custos relacionados com a baixa confiabilidade do suprimento, mal agendamento, baixa precisão da previsão ou erros de previsão, entre outras coisas.

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