Entendendo os desafios da logística urbana

29/03/2018 - SCAMBO

Por Patrícia Laranjeiro

O tema ” logística urbana ” (“city logistics ” em inglês) tem chamado cada vez mais atenção no contexto global e especialmente na última década quando olhamos o cenário brasileiro. E aí vem a pergunta: por quê?

A logística por si só já é um conceito estabelecido a mais tempo, sendo considerada “a parte do Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos (Supply Chain Management) que planeja, implementa e controla, de maneira eficiente e eficaz, o fluxo direto, o fluxo reverso e a armazenagem de bens, serviços e informações relacionadas, desde o ponto de origem até o ponto de consumo com o propósito de atender os requisitos dos clientes”.   (CSCMP, 2009)

Mas o que seria a logística urbana então? A resposta é a mais intuitiva possível: se trata da logística dentro do contexto urbano, ou em termos mais técnicos: “um processo de otimização das atividades de logística em áreas urbanas considerando os impactos sociais, econômicos, financeiros e ambientais relacionados ao transporte urbano de mercadorias.” (Taniguchi et. al, 2001)

Certo, mas por que então as atividades logísticas desenvolvidas no meio urbano têm tido mais destaque nos últimos tempos? A resposta envolve diversos fatores. Podemos começar citando o fator população: desde 1990, as populações têm ocupado cada vez mais áreas urbanas em todo o mundo (54% em 2015), sendo que a previsão é que em 2030 este número atinja 80%, isso quer dizer que a cada 5 pessoas, 4 estarão morando em cidades.

Associado ao seu tamanho populacional as aglomerações urbanas também requerem maior atenção devido às suas influências econômica – as cidades foram responsáveis por 80% do Produto Interno Bruto (PIB) produzido em 2016 (ONU, 2016) – sociocultural, ambiental e política. Dessa forma, fica bastante evidente a importância do meio urbano para a logística devido ao fato de concentrar grande parte da demanda (consumidores finais) por mercadorias e serviços.

Além disso, temos outras características das cidades que dificultam a “vida” da logística neste ambiente. Podemos citar, por exemplo, as atuais práticas de produção e distribuição, baseadas em baixos níveis de estoque e na pontualidade e agilidade das entregas. Além disso, temos o aumento do comércio eletrônico (e-commerce) e o crescimento de comunidades de baixíssima renda (também conhecidas como “favelas”), onde o abastecimento de mercadorias e entregas a domicilio é ainda mais complexo.

Dentro deste contexto, acrescenta-se ainda um terceiro fator que dificulta o aprimoramento da logística nas cidades: a quantidade de agentes envolvidos e seus interesses. De um lado temos os embarcadores (donos da carga) e os transportadores que basicamente têm o objetivo de minimizar custos e maximizar lucro e nível de serviço individualmente; depois temos a própria sociedade, representada pelos consumidores que querem ter acesso aos produtos e serviços a custos e prazos razoáveis, sem que isso atrapalhe a sua qualidade de vida, seja através de congestionamentos, poluição visual, sonora e do ar, etc.

E por último temos o Poder Público que representa um intermediador entre os demais interessados, cujo objetivo é promover o desenvolvimento da cidade, garantido a qualidade de vida da população e minimizando os impactos negativos das atividades urbanas. Este interfere diretamente na logística através de políticas públicas, muitas vezes representadas por regulamentações que restringem atividades de circulação de mercadorias e/ou carga/descarga na cidade, impactando diretamente os custos logísticos para os embarcadores e transportadores que, em última instância, acabam sendo repassados ao consumidor final (sociedade).

Assim, fica muito clara a dificuldade de equilibrar esta equação com muitas variáveis (agentes), onde muitas vezes os interesses são conflitantes.

Então lembrando que a logística é responsável por otimizar o fluxo de produtos até o seu ponto final e sabendo a maioria dos consumidores vivem nas cidades, entende-se que grande parte do fluxo logístico termina nesse ambiente (urbano) complexo e com múltiplos agentes, o que torna a logística urbana cada vez mais desafiadora. Assim, é imprescindível que tomemos ciência deste processo para investirmos no desenvolvimento de soluções e iniciativas que sejam de fato abrangentes no contexto geral, e não apenas a uma das partes envolvidas.

Referências

Council of Supply Chain Management Professionals – CSCMP, 2009, Definição de logística. Disponível em http://www.cscmp.org, acesso em 23/03/2018.

TANIGUCHI E, THOMPSON RG, YAMADA T, V. D. R. City logistics – Network modelling and intelligent transport systems. [s.l.] Pergamon, Oxford, 2001.

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