Servitização da logística urbana indo além – muito além! – da logística

09/06/2020 - Paulo Oliveira

Já não é novidade que a logística urbana está passando por uma profunda mudança. O surgimento contínuo de start-ups no Brasil (mais de 12.000, segundo levantamento da ABStartups) e, mais especificamente, na área de operações (relatório Liga Autotechs) é um sinal claro desta mudança. Também reforça este ritmo de mudança a lista de unicórnios brasileiros, que inclui 2 start-ups com foco em logística/serviços de entrega (Movile/iFood e Loggi).

Em janeiro/2020, o tema chegou ao clube dos maiores líderes mundiais em Davos, Suíça, onde foi apresentado o relatório “The Future of the Last-Mile Ecosystem”, trazendo mais de 20 iniciativas para melhor as operações de abastecimento urbano, com dados, resultados e sugestões para efetiva implementação.

Mas até aqui tudo bem, as discussões e notícias estavam focadas nas questões operacionais.

E então as percepções sobre esta mudança ganham outros espaços de pensamento, talvez apontando que o buraco pode estar mais embaixo.

Em Fev/2020, começou uma exposição de fotos em Paris mostrando quem são as pessoas por trás dos entregadores de aplicativos (“On n’est pas des robots”, photographs by Cécile Cuny, Nathalie Mohadjer and Hortense Soichet on “the world of workers in logistics”, Maison Robert Doisneau, Gentilly, Paris). Recado claro: as plataformas de entrega têm pessoas reais entregando. Óbvio, mas pouco dito.

Também em fevereiro, dia 27, estreou no Brasil o filme “Você não estava aqui“ (“Sorry, we missed you”), que trata da ‘uberização’ das relações de trabalho, mas do ponto de vista do trabalhador (um entregador de encomendas!). A partir da lógica de “ser meu próprio chefe”, a história se desenrola para mostrar que não é bem isso que acontece com estas pessoas e suas famílias.

Finalmente, o colunista da Folha de São Paulo, Mario Sergio Conti, escreveu dia 29/fev sobre os impactos destas novas formas de trabalho para a base da pirâmide: aqueles que executam as tarefas. O artigo menciona um estudo social-filosófico francês de set/2019, que fez ampla pesquisa com estes trabalhadores autônomos de plataforma.

Mas como esta ampliação de discussão sobre o tema impacta nós, logísticos e empreendedores da nova economia?

Como pessoas físicas, queremos serviços ágeis, de qualidade e com baixo custo.

Como executivos em grandes empresas ou empreendedores digitais, queremos ofertar serviços ágeis, de qualidade e a baixo custo.

Porém podemos estar criando um desequilíbrio estrutural entre os elos destas novas cadeias de abastecimento, as quais vem se favorecendo da ampla disponibilidade de mão-de-obra (taxa de desemprego em queda, mas ainda em 11% na média em 2019), do crescimento da informalidade (adicionadas +1 milhão de vagas informais em 2019), da baixa qualificação média dos trabalhadores e do (pseudo)desejo da maioria de trabalhadores de não ter mais chefe.

Precisamos, como profissionais, entender claramente os benefícios decorrentes do uso amplo de tecnologia, dos  ganhos em escala e das soluções ‘asset light’, buscando equilibrar a divisão de tais benefícios dentre aqueles que participam destas cadeias: plataformas, compradores, vendedores e entregadores – atualmente, este último ator tem assumido boa parte do ônus sem ter acesso aos bônus.

Para ficarem disponíveis ao longo de todo o dia (e noite…), trabalham longas horas (estudo da Aliança Bike fala em mais de 12 horas/dia), rodando mais de 30km por dia, muitos sem descanso semanal (57% trabalham 7 dias por semana), utilizando recursos próprios (bike, moto etc). E tudo isso para uma renda média mensal abaixo do salário mínimo: R$936,00.

Qual o benefício para estes entregadores? Ter alguma renda? Isso é suficiente?

Não defendo a transformação destes entregadores autônomos em empregados CLT – essa saída aparentemente fácil e lógica joga contra inovação, distribuição de oportunidades, burocracia etc. Mas é preciso pensar em formas de garantir adensamento nas rotas de entrega, em bônus para entregadores de melhor performance, em capacitação para levar entregadores para os times internos ou para atuar como líderes/treinadores, em redução do tempo ocioso por meio de ofertas diferenciadas nos períodos “off-peak” de pedidos…

O modelo como as plataformas iniciaram suas operações foi crucial para garantir crescimento rápido de pedidos, conquista e fidelização de mercados, aumento da abrangência e rentabilidade para os negócios.

Agora está na hora de passar para a próxima fase: garantir processos justos e sustentáveis ao longo do tempo para todos os envolvidos. Certamente a empresa que alcançar isso primeiro terá um grande e difícil de imitar vantagem competitiva.

Referências

Levantamento ABStartups: https://startupbase.com.br/home

Relatório Liga Autotechs 2020: : https://insights.liga.ventures/estudos-completos/mapa-autotechs-2020/

Unicórnios brasileiros: https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2019/12/2019-o-ano-dos-unicornios-brasileiros.html

Relatório “The Future of the Last-Mile Ecosystem” – World Economic Forum: http://www3.weforum.org/docs/WEF_Future_of_the_last_mile_ecosystem.pdf

Crítica do filme “Você não estava aqui”: (https://www.huffpostbrasil.com/entry/voce-nao-estava-aqui_br_5e5e638ac5b6732f50e890e2)

Artigo Mario Sergio Conti, Folha de São Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2020/02/no-brasil-da-se-por-feliz-o-trabalhador-que-pedala-30-km-e-12-horas-por-dia.shtml

Livro “Les nouveaux travailleurs des applis”: https://www.puf.com/content/Les_nouveaux_travailleurs_des_applis

Informações IBGE sobre nível e qualidade do emprego em 2021: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-02/taxa-de-desemprego-cai-em-16-estados-revela-ibge

Aliança Bike: http://aliancabike.org.br/pagina.php?id_secao=10&id_page=50rviti

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